Música é algo que deve ser atemporal, todos os maiores clássicos da história tomaram tal posto devido soarem de forma contemporânea, ignorando o momento em que foram produzidos; e esse ciclo pode ser exemplificado nas obras de Cartola à Vandal.
A forma como as redes sociais se desenvolveram e cresceram de maneira rápida e exponencial, redefiniu totalmente a forma do consumo de cultura no mundo inteiro. E dentro da indústria da música, há uma preferência gigantesca a produção daquilo em grande escala que será o “hit do momento”, rentável e de fácil absorção. Dessa forma muitos artistas tem consolidado sua carreira com uma visão projetada sob aquilo que será consumido via TikTok ou reels do Instagram, ignorando totalmente o viés artístico e cultural daquilo que está sendo produzido.
Um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, Cartola, já vinha observando a falta de profundidade presente nas composições de samba-enredo das escolas, e dessa forma o mesmo optou por se afastar do cenário, já que não concordava com essa tendência.
Em uma entrevista ao DJ KL Jay, o mesmo aproveita para mencionar como foi a construção da clássica faixa “Jesus Chorou”, que até hoje é vista como uma das principais feitas pelo grupo Racionais Mc’s, no trecho o artista destaca a demora e o cuidado que se teve na produção do instrumental: “… fiquei ouvindo isso 3 horas (o sample), andando pra lá e pra cá, porque a música tem que fluir, né? em qualquer lugar que você ouve ela.”
Trazendo essa mesma leitura para os dias atuais, recentemente o rapper BK iniciou em São Paulo a turnê especial de 10 anos do seu álbum “Castelo & Ruínas”, e realizou o feito histórico de lotar um estádio de futebol com + de 45 mil pessoas, marca essa jamais atingida por nenhum artista do Rap. De que forma uma obra que não fosse atemporal, ou seja, de rápido consumo, iria atingir essa marca? E ainda de forma tão orgânica e natural? Visto ainda que se trata de um show completo de faixas que foram feitas à 10 anos atrás! Isso por si só é uma demonstração de respeito pela arte, e ao mesmo tempo de crítica a esse imediatismo forçado.
Nesse mesmo ano o DJ ANTCONSTANTINO lançou seu primeiro álbum chamado “Quebrar Quebrou” com venda exclusiva em vinil, sem distribuição nas plataformas digitais, como uma forma também de críticar esse consumo rápido e desenfreado que tem sido incentivado pelo mercado de uma forma geral.
Ainda em 2026, após 11 anos do lançamento de seu primeiro projeto, o artista de Salvador, VANDAL, colocou nas ruas seu primeiro álbum chamado “VANGUARDAH”, carregado de participações especiais, profundidade, sincretismo, resgate, e muito significado. Com apenas 10 faixas o artista demonstrou a sua genialidade criando um álbum extremamente autêntico, e utilizando desde a essência dos ritmos baianos, como o Pagodão por exemplo, até a clássica batida do Boombap; mas sempre com uma lírica única e instrumentais cuidadosamente compostos por uma levada cativante.
Sendo sincero não acredito que já seja possível processar esse último projeto do VANDAL em sua totalidade, a presença de elementos que reverenciam o passado e outros que anunciam a chegada do futuro, seguindo numa linhagem TOTALMENTE BRASILEIRA, é algo irá levar um longo período para ser digerido completamente. E tudo isso ocorre devido ao respeito mútuo pela arte, e é em consequência disso que surgem os clássicos atemporais, assim como ocorreu com sua Mixtape TIPOLAZVEGAZH.
Enfim, existem diversos exemplos de artistas que possuem esse respeito mútuo pela arte, e sabem a importância daquilo que é imaterial, mas que deve ecoar por anos e anos, afim de sustentar seu próposito maior. Espero que em meio a essa era de mídia controladora, a música siga sendo um forte pilar educador e formador de opinião nas periferias do nosso país.
Um salve à criatividade.

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