A música brasileira, com gêneros como Rap, Samba, MPB, dentre outros, são providos de épocas diferentes, mas que conversam entre si a qualquer momento. São gêneros esses que emergiram da resistência e criatividade da população negra brasileira.
Ao mesmo tempo, existe também a cosmologia africana trazida ao Brasil em seu recente período escravagista, a vinda dos povos Bakongo, Banto, Jeje, Nagô (Iorubás), foi responsável por compor e desenvolver as “religiões de matriz-africana”, mas que na verdade com muitos anos de misturas e miscigenações se tornaram, sobretudo, brasileiras.
Diante desse cenário, existem obras musicais que acredito serem verdadeiras obras-primas pela maneira como executam com maestria sua vertente musical, e ao mesmo tempo reverênciam com honra e gratidão essas religiões.
“Desaforo” – Aniceto do Império e Martinho da Vila
O fundador do Império Serrano e grande mestre do partido alto, com a participação de Martinho da Vila, lançou a faixa “Candengo” em 1984, com nome provido de origem Banto, “Kandenge”, que significa “criança” ou “menino”. Durante o decorrer da música o artista retrata diversas reações ao ser chamado de “Candengo”, por desconhecidos, conhecidos, amigos ou inimigos, e a obra discorre enquanto o mesmo menciona e reverencia Orixás e elementos do sagrado.
“Você me chamou de candengo,
Sou filho de Obaluaê,
Você me chamou de candengo,
Você é preto velho, mas eu sou erê,
Você me chamou de candengo,
Eu sou protegido por erê,
Seu zé me chamou de candengo,
Da cabeça da angola, podes crer”
“Por Todos os Santos” – Fundo de Quintal
Escrita por Nelson Rufino e Carlinhos Santana, essa obra discorre como uma espécie de oração no samba, saudando diversos Orixás da cosmologia africana e da indígena também, como “Tupã” por exemplo, o Senhor do Trovão para as tribos tupi-guarani. Além disso referências negras de grande importância histórica e cultural também são mencionadas, de forma coesa e poética, enquanto a percussão cumpre seu papel com responsabilidade e sabedoria.
“Por Tupã, Gheová, Zambi, Olorum,
Mangueira, Portela, Olodum,
Pade Ciço de lá do sertão,
Joãozinha da Goméia, Menininha,
Seu sete, dou sete velinhas,
Eu quero é reconciliação”
“Tupã Tupi” – Arthur Verocai
Lançada em 2007, a faixa de MPB reverencia com delicadeza e conta a história do Deus “Tupã”, de origem tupi-guarani, sua batida segue um ritmo próximo ao Jazz enquanto Arthur menciona palavras de origem indígena, seguindo em sincronia aos momentos de ápice de seu instrumental incrível.
“Tupã criou os deuses,
Da terra do Tupi,
Tupã criou os índios,
Que nunca mais eu vi,
Parece que foi lenda,
De um Deus Tupã Tupi”
“Cantando pro Santo” – Sabotage e Chorão
Nessa faixa o rapper Sabotage faz diversas referências ao apego de uma fé vivida em sua maneira mais pura e misericordiosa, com forte menção a Umbanda e entidades (ou catiços), como Zé Pilintra por exemplo, o rapper demonstra de forma até mesmo intíma, um pouco de sua trajetória, seu carinho e gratidão aos guias do outro plano.
“Várias demandas arrematadas na umbanda,
Zé, em quem carrego a fé desde criança,
Deus menino meu pastor, console a nossa dor,
Guerras, intrigas de familia é um horror”
Dessa forma acredito que esses dois mundos, a fé e a música, caminham juntas em um só propósito: ser o suspiro de alívio para os excluídos, perseguidos e menosprezados, que durante séculos tiveram (e ainda têm) suas religiões caçadas e ofendidas. Uniões como essas só tem a agregar a nossa cultura e diversidade brasileira, que mais artistas reverenciem com gratidão e respeito a ancestralidade.
Um salve à criatividade.

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